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1 Aspectos da realidade
O tema pressupõe uma necessidade de construção
ou reconstrução. Em caso de construção
o sentimento predominante pode ser de ânimo e força
de vontade. Em caso de reconstrução podemo-nos
sentir como diante de ruínas que nos causam incertezas,
insegurança e desânimo.
Ao escrever estas linhas, em fins de setembro de 2001, não
posso esquecer ou ignorar o acontecimento dramático
do dia 11 de setembro em Nova Yorque e Washington. Em poucos
minutos foi devastado o que era tido como símbolo mundial
do poder sócio-econômico cultural e bélico.
As reações das pessoas e nações
oscilam entre sentimentos de ódio, vingança,
condenação, autocrítica e reconhecimento
de omissão e culpa que contribuíram para tanta
desgraça ou mesmo a originaram.
Sentimentos semelhantes, tão diferentes e contraditórios,
devem ter caracterizado também aquelas pessoas exiladas
que voltaram, em torno de 540 antes de Cristo, do cativeiro
babilônico. Esperançosas e jubilosas celebraram
a libertação. Tendo voltado para casa,
porém, encontraram somente ruínas e um mundo
estranho e hostil. Desilusão paralisante e profunda
resignação perigavam tomar conta delas.
Também a nós, hoje, assaltam perguntas e mais
perguntas, como por exemplo: Será que os governantes
resistem à violência vingativa? Serão
capazes de parar com a promoção de protecionismos,
acumulação de riquezas na mão de poucos,
negando a dois terços dos povos do mundo o direito
à vida digna? Estamos dispostos a reconhecer tais fatos
como atos de violência, mais ou menos camuflada mas
geradora de reações violentas? Será que
finalmente vamos conseguir uma nova ordem sócio-econômica
mundial que possibilita mais justiça e paz a todas
as pessoas e todos os povos, especialmente aos que mais delas
carecem? Será que teremos a humilde grandeza de colocar
em segundo plano nossas divergências a fim de somar
todos os esforços para buscar maior equilíbrio
ecológico no planeta e no espaço? Somente assim
nossos netos poderão viver neste mundo de Deus, resgatado
em sua intencionalidade semelhante a um belo jardim!
Tais perguntas, entre outras, nos defrontam com a amplitude
da missão de Deus em nossos dias. Ela implica em santo
serviço.
2 - Deus nos serve primeiro
Segundo o Plano de Ação Missionária
da IECLB (PAMI) é Deus que nos serve primeiro. De graça,
sem merecimento nosso, Cristo se doa em nosso favor. Em sua
vida, morte, ressurreição e ascensão
ele nos oferece a razão para viver com esperança.
Ela não é a última que morre, muito antes
a única que conduz ao reino de Deus.
Pelo poder do Espírito Santo ele nos desperta a fé
que confia na vitória da vida sobre a morte, apesar
das aparências em contrário. Pelo santo batismo
nos torna filhas e filhos de Deus. Incorpora-nos no corpo
de Cristo, na grande família de Deus, na comunidade
e na igreja de Cristo. É por isso que o lema da IECLB
para o ano de 2002, destaca a razão do nosso ser igreja,
ou seja, porque ele nos amou primeiro (1 Jo 4.19).
3 - O amor de Deus nos cativa e liberta
Este amor de Deus nos envolve e cativa. Liberta-nos do Eu
para o Tu. Faz-nos abrir a mão e o bolso para repartir
com quem necessita
- de tempo para ouvir,
- de um ombro para se encostar e soluçar,
- de uma ocupação para ser útil e ganhar
o pão de cada dia,
- de um lugar para estudar e de outro para tratar de sua
saúde.
De maneira tão concreta 1 Jo 4.19 e seu contexto menor
falam da prática do amor ao próximo. É
grata resposta ao amor recebido por Cristo.
Todos os apelos para o amor ao próximo que não
emanam deste indicativo, são mera filosofia moralista
que ignora a nossa necessidade de libertação
do Eu para o Tu. E essa não se dá por apelos
à força da boa vontade, mas somente pela obra
salvífica de Cristo, abraçada em fé.
É esse testemunho evangélico luterano que devemos
ao mundo marcado por tantas propostas de auto-salvação.
4 - O amor de Deus nos compromete
Assim, de forma palpável, passamos adiante o amor
que Deus nos oferece. É esse o compromisso batismal,
decorrente da dádiva graciosa. Já que no batismo
fomos ordenados sacerdotes e sacerdotisas, somos incumbidos
com a tarefa de resgatar e promover a comunhão integral.
Importa restabelecer e tecer a teia de relações
do ser humano com o meio, com Deus e consigo mesmo. É
isso e nada menos que caracteriza o santo serviço,
a diaconia.
O desafio é tão grande que uma comunidade
ou igreja sozinha não consegue abraçá-lo.
Por isso o PAMI afirma:
A ação diaconal ultrapassa as fronteiras
internas e externas. Une-se ecumenicamente e coopera, na medida
do possível, com órgãos governamentais
e não-governamentais, a fim de promover a justiça
através da cura dos males sociais [penso no mais amplo
sentido da palavra] (PAMI, p. 14).
Temos, pois, diante de nós a reconstrução
e criação da vida em comunhão, da vida
em comunidade. Deus, através do Espírito Santo,
chama, capacita e envia pessoas para recriar e criar a vida.
Importa, pois, dar-mo-nos as mãos, somar os saberes,
as experiências, as capacidades e os esforços.
Assim o tema da IECLB para o ano de 2002 nos conclama:
5 - Mãos à obra!
5.1 - É um convite, um imperativo, uma ordem para
construir respectivamente para reconstruir. Não tem
caráter opressor ou explorador, mas muito antes, um
tom de ânimo e estímulo, no sentido de: Coragem,
vamos lá! Vamos reconstruir as muralhas de Jerusalém,
a cidade arrasada, por volta de 540 AC. Tendo reerguido as
muralhas teremos a proteção necessária
para viver e reconstruir as casas. Não desanimemos!
Vai dar certo!
5.2 Quem fala? É o profeta Neemias. Ele também
veio da Babilônia para animar as pessoas recém
voltadas para Jerusalém. Mas quem é ele? Será
que é apenas um amigo bem intencionado, mas cujas forças
também são limitadas tanto quanto as nossas?
Ele se dirige ao povo dizendo em 2.17s.:
Vejam como é difícil a nossa situação!
A cidade de Jerusalém está em ruínas,
e os seus portões foram destruídos. Vamos construir
de novo as muralhas da cidade e acabar com essa vergonha.
18- Então contei a eles como Deus me havia abençoado
e me ajudado. E também contei o que o rei me tinha
dito. Eles disseram: Vamos começar a reconstrução!
E se aprontaram para começar o trabalho. (nova
BLH)
5.3 O que ele fala?
5.3.1 - Anima para olhar a realidade (v. 17a). A pessoa cabisbaixa
enxerga só o chão à frente dos pés.
Para ver a realidade, é preciso levantar a cabeça
desanimada. É necessário lavar os olhos para
enxergar os sinais da não-vida. É preciso ouvir
os clamores por socorro, mesmo os gemidos silenciosos. Esse
perceber também implica em estar atento às notícias
impressas e televisionadas.
5.3.2 Testemunha que, já no passado, Deus se
tem manifestado como socorro. Conta experiências da
própria vida. Importa abrirmos espaços em nossos
encontros comunitários para se compartilhar depoimentos
pessoais sobre como Deus tem ajudado. O profeta certamente
também lembra de como Deus deu forças aos cativos
ao longo dos 40 anos de exílio e cativeiro. Reaviva
a memória no sentido de considerar o milagre de Deus
ter libertado o seu povo escravizado através do rei
Ciro, uma pessoa pagã. Deus é ilimitado em seu
poder a ponto de poder utilizar-se de tudo e de quaisquer
pessoas como instrumento de sua bênção.
5.3.3 Neemias lembra de como o rei já tem ajudado,
liberando materiais de construção (cf. 2.7s.).
Assim Deus auxilia através de pessoas que se sensibilizam
e repartem.
5.4 Pela fala do profeta Deus encoraja e reanima
o povo sofrido de tal maneira que assume o desafio, dizendo:
Vamos começar a reconstrução!
E se aprontaram para começar o trabalho.
Arregaçaram as mangas!
6 Meditando sobre o cartaz
6.1 - Ao falarmos em meditar sobre o ..., expressamos
que somos o sujeito e tratamos o cartaz como objeto. O que
desta maneira analítica perceberemos em termos de detalhes
certamente poderá ser importante. Entretanto, uma arte
sempre é mais do que a eventual soma de seus detalhes.
Este mais e este todo dificilmente
perceberemos enquanto permanecermos na postura de sujeito.
Importa trocar de papel. Tornar-se objeto do cartaz, dispondo-se
e expondo-se a ele, colocando-se abaixo dele. Então
ele assumirá o papel de sujeito que me faz perceber,
ouvir, sentir. Ele acaba cativando-me. É esse o mistério
do meditar com o coração ou, como os antigos
diziam, é o mistério da contemplação.
Ele me cativa, envolve todo o meu ser, não me deixa
como sou, coloca-me a caminho, ...
6.2 - Mãos predominam o cartaz. Mãos amassam
o pão. São bonitas. Ágil e carinhosamente
trabalham a massa, como se a estivessem acariciando.
6.3 - A massa de farinha integral ainda reflete algo dos
grãos que se sacrificaram. Tendo se doado, abnegando-se
de sua existência em favor do objetivo maior do pão,
cumprem sua verdadeira finalidade.
O grão já tinha desistido de sua existência
quando se deixou semear e quando se desfez na terra para reverter
em muito fruto. Na hora do moer se dispôs novamente
para o sacrifício em favor de algo maior. Agora, no
amassar o pão e logo depois no assar, mais uma vez
se doa em favor do mistério de nutrir a vida.
6.4 - Jesus diz: Se o grão de trigo, caindo
na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer,
produz muito fruto (Jo 12.24). Sacia famintos com pão
do céu. Morrer para viver este é o mistério
da vida!
Cristo diz: Eu sou o pão da vida; o que vem
a mim, jamais terá fome; e o que crê em mim,
jamais terá sede(Jo 6.35). Em sua palavra e ao
redor de sua mesa Cristo nos sacia a fome e sede de vida.
6.5 - Servidos e amados por ele, temos as duas mãos
livres para servir, repartir e amar.
Isso assume formas concretas. Deus preza o concreto e o corporal.
Foi por isso que se tornou pessoa em Jesus. Ele saciou pessoas
famintas, curou doentes, perdoou quem se voltou a Deus, reintegrou
na comunhão pessoas marginalizadas e excluídas,
celebrou a alegria de casamento com gente simples, sacrificou
a própria vida em favor do mundo. Deus não deixou
o seu Filho nas garras da morte, mas o ressuscitou com novo
corpo que não mais morre. Com isso deu razão
ao novo jeito de viver: doando-se é que se recebe;
morrendo é que seremos ressuscitados para a vida.
6.6 - As pequenas fotos abaixo do símbolo do amassar
o pão, expressam alguns flashes de mãos na obra.
Procuremos identificar de que forma isso acontece em cada
momento.
Uma das fotos contém inúmeras mãos coloridas.
São impressões das mãos das 120 pessoas
delegadas ao XXII Concílio da Igreja, realizado em
outubro de 2000, em Chapada dos Guimarães. Com esse
gesto os conciliares expressaram a sua disposição
em unir-se na missão que Deus realiza na e através
da IECLB. Foi nesse sentido que aprovaram, com unanimidade,
o Plano de Ação Missionária da IECLB
(PAMI), sob o título Recriar e criar comunidade juntos
para que haja Nenhuma comunidade sem missão e Nenhuma
missão sem comunidade. Este espírito missionário
expresso no PAMI quer determinar todo o nosso ser IECLB, pelo
menos ao longo dos próximos sete anos! É por
isso que o emblema da IECLB está no fundo da foto.
E é por isso que essa mesma foto foi reproduzida em
forma ampliada para servir de fundo da parte inferior do cartaz.
6.7 - A missão é fazer pão que sacia
fome de vida. De Cristo, o diácono por excelência,
ela recebe sua motivação e capacitação.
Essa missão é tão ampla que ultrapassa
a capacidade de apenas duas mãos. Deus quer utilizar
também as mãos de você, por mais insignificante,
afastado/a ou desajeitado/a que se possa sentir. Juntemos
as nossas mãos, nossos saberes, jeitos e esforços.
A obra é tão grande que tem lugar para todas
as mãos, mesmo para minhas! Por isso: Mãos à
obra!
6.8 - Não precisamos ficar assustados diante de tamanha
responsabilidade ou mesmo em realidade adversa. Deus nos amou
em Cristo. Esse amor venceu, vence e vencerá em definitivo,
no final dos tempos. Ele terá a última palavra.
Por isso: a causa é de Cristo que vive e faz viver.
Por ser dele, ela não poderá sucumbir. Já
que ele nos amou, ama e amará, dispomos também
as nossas mãos à obra que é dele. Vamos
lá, juntos!
7 - Relacionando o tema com o PAMI
7.1 Relembrando o objetivo do PAMI (aprovado em out.
de 2000), p. 1, queremos recriar a comunidade para que ela
vivencie solidariedade fraterna, se torne aberta, acolha pessoas
de fora e ultrapasse quaisquer fronteiras por causa do evangelho,
com vistas à criação de novas comunidades.
Pois viver em comunhão é o meio de viver dignamente,
para não dizer sobreviver, num mundo globalizado que
isola, marginaliza e exclui.
7.2 Para tanto nos foram dadas, como ponto de partida,
propostas concretas (cf. p. 21-26), desafios específicos
para a vida comunitária bem como desafios específicos
para o ser IECLB nos próximos sete anos (cf. p.27).
7.3 No ano de 2001, sob o tema e o lema Ide
fazei discípulos ... para que tenham vida ... em abundância
- temos enfatizado que o PAMI é a concretização
da missão com que o próprio Cristo nos incumbe.
Ela objetiva promover vida para tudo e todos, especialmente
para o que é mais carente.
7.4 No ano de 2002 lembraremos novamente o ponto de
partida e de chegada da missão que é o amor
de Deus. Este não nos acomoda nem nos faz resignar
diante das dificuldades e adversidades. Pelo contrário,
o amor de Deus, experimentado por seu povo ao longo da história,
terá a última palavra. É somente nisso
que se baseiam a nossa esperança e a nossa coragem
de abraçar a missão de Deus. Por isso demo-nos
as mãos, somemos os esforços, intercambiemos
as experiências e ensaiemos o repartir em parcerias
internas.
- Nesse sentido importa intensificar a formação
de lideranças, o que entrementes é prioridade
em todos os sínodos. Compartilhemos as experiências
feitas neste tocante e intercambiemos recursos humanos e didáticos.
- Urge investir na comunicação e na publicidade.
Identifiquemos os prédios comunitários com o
símbolo da IECLB e coloquemos placas indicativas, na
entrada da localidade, anunciando endereço e horários
dos encontros da comunidade. Revisemos os conteúdos
e jeitos de nossas pregações para que se tornem
mais evangélicas e mais convincentes, ensaiando a arte
de diferenciar e interrelacionar Lei e Evangelho; invistamos
tempo e recursos na comunicação não-verbal
para que a mensagem se torne carne, palpável e cativante.
Ampliemos a presença nos meios de comunicação
impressa, radiofônica e televisionada.
- Em Pentecostes, todas as comunidades são convocadas
a realizarem o Dia de Missão, formando uma grande corrente
IECLB afora. Na ocasião, queremos levantar ofertas
generosas e espontâneas para a criação
de uma nova comunidade, em cidade com mais de 200.000 habitantes.
- É necessário trabalhar com perseverança,
em todas as comunidades, o tema Relacionar a fé
com o nosso tempo, nossos dons, talentos, bens e dinheiro.
Pois não se participa da missão de Deus sem
recursos humanos, estratégicos e financeiros.
Que tal, priorizarmos esses desafios no ano de 2002! É
obvio que tal sugestão não é excludente.
Entretanto, na reunião dos presidentes e pastores sinodais,
em set. de 2001, sentiu-se uma tendência de caminhar
nesta direção. Que tal, recriar e criar comunidade
juntos! Nesse sentido Mãos à obra!
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